0003. Das estranhezas aos esclarecimentos | a luz vem quando a gente menos espera

 Querido Diário, 

Hoje o dia foi mais complicado, eu não tinha compromissos fixos com outras pessoas, o que eu achei que me auxiliaria nos estudos, mas eu basicamente fiquei o dia todo mudando de tarefas sem conseguir ter foco em nada. começava as coisas e não prosseguia em nada. E quando finalmente conseguia me concentrar algo me distraía e eu me deixava distrair também. Muito difícil chegar ao final de um dia e entender que ele não foi proveitoso por erro meu. Nem descansar eu consigui, minha cabeça estava a mil, meu foco, zero. Mesmo assim vim aqui cumprir pelo menos essa missão deliciosa que é escrever pra você. Também consegui ter um tempinho de prosa e atenção pro Maycow e consegui fazer uma ligação com o Jonatas. E minhas saudades realmente estão tão grandes quanto eu imaginava, ou maiores. Mas foi muito bom ouvir a voz dele, mesmo que rapidinho. 

Bom, como hoje eu fui algo que não quero ser vamos falar sobre isso. Me senti como uma criança birrenta, eu não queria fazer nada, mesmo assim lutei contra esse impulso e fui fazer as coisas, mas nada saía. Talvez eu devesse ter ouvido meu corpo e ficado realmente a toa, aproveitando algum descanso e introspecção, mas um senso de dever e uma enorme autocrítica me julgaram. Eu me julguei por não querer fazer nada, e fiquei o dia todo brigando comigo mesma (mas de um jeito até que tranquilo, não foi tão pesadelo mental, sabe?). Não sei explicar muito bem, mas minha mente é muito esperta e ficava me distraindo o tempo inteirinho. Como diblar nós mesmos em dias assim? Como fazer o que sabemos que tem que ser feito, mesmo com nosso ser implorando preguiça? Como vencer essa batalha interna? Quais são os recursos pra isso? Porque eu consegui ludibriar todos os recursos que tentei. E quando estava finalmente ganhando veio o mundo e  bateu a minha porta, era o Maycow fazendo um pedido. E daí eu travei. Parei de novo o que estava fazendo pra fazer o que ele me pediu, mas não consegui fazer nem o que ele pediu nem voltar a fazer o que eu estava fazendo. E esse foi o resumo do dia todo, ia estudar e aparecia um anuncio de emprego e quando via tava atualizando o Linkedin, depois mexendo em documentos, quando eu lembrava que a ideia era estar estudando, mas essa hora batia a fome, ou vontade de ir ao banheiro, ou alguém ligava, a internet parava. Não sei se o nome disso, é ansiedade, desespero, ou autosabotagem. Mas teve um erro gravíssimo que só percebo agora. O tempo todo eu fiquei querendo resolver isso sozinha. Em momento algum eu parei e pedi ajuda a Deus para me auxiliar a lidar comigo mesma e com meus vícios e fraquezas no dia de hoje. E eu realmente preciso começar a entender o momento de pedir ajuda. Eu até pensei em meditar, mas nem isso eu estava conseguindo fazer. Eu devia ter só pedido reto e direto por ajuda. 

De toda forma fica aqui a lição, parar, respirar e pedir ajuda. Eu nem quero e nem vou mais voltar a inércia ou confunsão em que estive um tempo atrás. Eu atravessei esse rio e não volto mais. Minha fé não se encontra mais tão abalável, minha base foi reestabelecida, em algumas partes foi até reconstruídas, outras reforçadas, outras ampliadas. Sei que minhas raízes tem seu lugar nesse quintal de Deus, e que daqui por diante é ter paciência e conscistência em todos os meus planos. Um dia eu vou passar no doutorado, um dia eu ser independente financeiramente, um dia eu vou viver em abundância e plenitude na paz de Jesus Cristo, um dia eu construir minha família, vou estar com o meu companheiro de vida, teremos pelo menos três filhos juntos, teremos um pedaço de terra pra plantar e pra colher, vamos também dividir os frutos. Nossa casa vai ser bela e aconchegante, vai ser cheia de arte e amigos, e também repleta de paz e alegria. Onde tudo será feito com amor. Onde todos se sentirão bem vindos, mas sempre saberão a hora de chegar e a hora de partir. Onde a comunhão será cotidiano, assim como a honestidade, a humildade, a leveza, a brincadeira, os cantos, as danças, as músicas, as prosas, as poesias, o cuidado uns com os outros, os desenhos, os aprendizados, as leituras, as orações, a vigilância, os deveres, as limpezas e organizações, a lida diária dos convívios e automelhoramentos. Meu Deus, eu quero tantas coisas tão bonitas, eu quero tanto essa família abençoada por você, quero tanto auxiliar a todos aqueles que de mim precisarem. Quero me tornar a pessoa que é capaz de realizar todos os meus sonhos mais lindos, cuidar da terra, das plantas, dos animais, dos seres inanimados, das pessoas, dos mais íntimos e dos mais distântes. Cumprir meus deveres em todas as esferas de todas as realidades as quais pertenço. 

Pra isso eu preciso vencer minhas travas todas e entender que eu posso sim passar nessa prova, como em qualquer outra. Eu posso sim ser uma grande intelectual, eu posso, saber muito mais do eu imagino que eu dê conta de saber. Assumir responsabilidade e altos cargos não é necessáriamente se colocar em um lugar acima das pessoas. Meu Deus eu destravei uma chave gigantesca nesse momento, que talvez meu medo de ser grande é um medo também de minha por todas as dores que ela passou e que eu vi ela passar sendo chefe tanto no trabalho quando em casa por muitos e muitos anos. Que difícil entender isso, assim no meio dessa escrita. E muito obrigada por isso ao mesmo. Espero que fique claroq eu não estou culpando minha mãe de nada do que acontece em minha vida, a ela eu agradeço por todas as inúmeras oportunidades e compreensões, minha mãe é um exemplo maravilhoso de entrega, amor, cuidado e compreensão. Eu a amo em níveis absurdos de intensidade. Eu a admiro e a compreendo. Eu entendo todos os lugares que ela precisou ocupar pela nossa família, para que eu e meu irmão pudéssemos crescer bem e felizes. Minha mãe passou por muitas dores sozinha. Mas a verdade é que ela nunca esteve de verdade sozinha. Eu e meu irmão estávamos lá e observamos tudo, e compreendemos tudo, mesmo que inconscientemente. 

Meu pai teve um surto esquisofrênico quando eu e meu irmão éramos muito pequenos, eu não me lembro de nada, mas ao mesmo tempo deve estar tudo aqui. Depois disso diz minha mãe que ele nunca mais foi o mesmo. Mesmo assim ele foi um pai maravilhoso, nós dois nos amamos imensamente. Temos uma relação única, repleta de amor e companheirismo. Acontece que as responsabilidades mais pesadas da família por conta disso, por muitos e muitos anos ficaram todas sob os ombros da minha mãe. Acho que ela não confiava mais no meu pai pra isso, e ele também não brigou por esse lugar. Ela não teve repouso, ela não pôde descansar Além de trabalhar fora e ter muitas responsabilidades como chefe do faturamento do único hospital que atendia SUS na cidade, ela ainda tomava todas as decisões emocionais e financeiras lá de casa. Ela decidia tudo. Meu pai sempre foi muito presente e ajudou da forma como ele pode, sempre entregou todo o seu salário nas mãos da minha mãe e sempre brincou muito comigo e com meu irmão, sendo de extrema importância para nossa formação. Ele é o meu mair acolhimento, minha mãe é o pulso firme. Mas ela queria ser sempre acolhimento, ela queria ter feito só o papel que lhe cabia. Acho que de alguma forma eu internalizei esse lugar de ser grande na vida com um lugar de muito sofrimento e dores. Não que minha mãe seja uma mulher triste. Mas eu não foi ficar me explicando aqui. São coisas muito complexas que acabo de perceber, ao mesmo tempo um tanto óbvias, são detalhes, são sentimentos, são posturas. 

Eu quero assumir o meu lugar no mundo e eu sei que eu posso fazer isso com amor e alegria, eu sei que eu posso dividir as responsabilidades com outras pessoas e que eu posso receber cuidade e carinho. Eu posso receber ajuda sempre, eu posso estar aberta para que as pessoas faças as coisas do jeito delas e eu não preciso ter medo de ser do jeito que sou. Ao mesmo tempo que posso sempre estar aberta a ouvir críticas e a mudar quando a mudança for necessária. Eu posso assumir meu papel no mundo e com muito amor mostrar pros meus pais que eles podem confiar em mim e que eu vou continuar sempre os ouvindo e confiando neles. Que o nosso amor é dos maiores que eu já vi ou ouvi descreverem, e que que eles podem também repousar no nosso amor sempre que precisarem. Eu vou honrá-los sempre. Vou honrar todos os ensinamentos, eu aprendi todos direitinho. E eu acredito em todos do fundo do meu coração, pelo menos em todos aqueles que reconheço como verdades divinas. 

Eu não sei ainda como vou fazer isso tudo. Mas agora eu já sei que com muito, muito amor, vou conseguir permitir que minha mãe descanse e viva a velhice dela livre, solta e feliz, fazendo muitos artesanatos, muitas viagens e conversações, e comigo sempre muito pertinho dela em todos os momentos, porque ela é uma amiga pra todo o sempre e o carinho e o respeito que tenho por ela não são desse mundo, Agradeço, mamãe, imensamente por toda a paciência que você teve comigo durante toda a minha vida e toda a minha difícil formação. Eu sei que sempre fui muito teimosa e distraída e que dias de falta de concentração como os de hoje sempre me rondaram, E você por mais que eu te irritasse dava um jeito de estar lá comigo e me fazer fazer o que tinha de ser feito. Você me ensinou a ter disciplina e responsabilidade e essas são lições das mais preciosas que se pode ter no mundo. 

Que supresa pra essa sexta a noite, estou eu aqui aos prantos de emoção. Acho que o dia esquisito teve seu propósito afinal. Talvez tudo tenha um. A estranheza desaguou em possibilidades de novas existências. Sou mais eu mesma agora do que quando comecei a escrever esse texto. Tenho mais permissão de mim mesma para me conhecer. Estou extremamente feliz por isso. Muito obrigada, meu Deus, por cada raio de consciência que atinge o meu espírito, por cada célula do meu corpo que se renova em luz. Espero estar cada dia um pouquinho mais perto de você. E espero que amanhã eu pinte e borde do meu jeitinho. Que seja um dia super gostoso onde eu aprenda muito e faça todas as minhas obrigações respeitando meus tempos, minhas formas e meus limites. Que eu saiba amar construir esse novo eu, esses novos modos de viver. 

Com muitooo amor e muita gratidão, 

Bel  

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