0007. Devaneios, leis do universo e os dois infinitos

 Querido diário, 

Ontem eu acabei indo dormir bem tarde, porque o pai do Jonatas foi atacado por um cachorro na rua, teve fratura exposta na perna. O Jonatas foi acompanhar ele no hospital e eu acabei não conseguindo dormir preocupada com eles. É muito ruim estar a distâncias nesses momentos. Em várias situações a distância trás muitos desafios, mas ver alguém que amamos precisando de um carinho e não poder estar perto para oferecê-lo na minha opinião é o mais difícil. E além da preocupação acho que eu também estava um pouco com as lembranças da queda e morte do Biba em mim. Enfim, foi muito maluco nesse acidente, inclusive com uma experiência premonitória nele, mas não irei contar detalhes aqui porque não é sobre mim e, no final, este é um lugar aberto, mesmo que eu não tenha leitores. No fundo sabemos muito pouco do significado de tudo. Porque sentimos e vemos certas coisas antes e outras não, porque não conseguimos ler os sinais a tempo de evitar as tragédias? Podemos evitar alguma coisa? Até onde vai o livre arbítrio? E o nosso conhecimento? Precisamos mudar quem somos para mudar nossas vidas. Toda mudança começa dentro. Não há como ter respostas diferentes do universo fazendo as mesmas coisas. Aos poucos vamos reconhecendo nossos padrões, quando mais conhecemos, mais compreendemos quantas dúvidas ainda nem sabemos que deveríamos ter. Por isso o grande ponto da pesquisa científica é fazer uma boa pergunta. Qual será a pergunta que irei conseguir desvelar nessa vida? Ou quais serão? Há tanto o que se aprender, tanto já nos foi revelado. A impressão que tenho, por vezes é que não há tempo nessa vida para descobrir tudo. Há de se escolhre um foco, um caminho, e essa parte é tão difícil pra mim. Ao mesmo tempo também penso que o tanto de tempo que temos é relativo, porque temos o poder de desdobrá-lo em infinidades. Encontrar com Kairós sem sair de Chronos. Não que isso signifique tempo o suficiente para resolver qualquer questão de nosso planeta, até porque nada fazemos sozinhos, mas as possibilidas se ampliam a cada despertar. 

Meu Deus, como posso estar tão perdida e ao mesmo tão próxima de algum lugar? Me sinto assim.

O Maycow acabou de me trazer pipocas, ele sabe que não costumo comer a noite, mesmo assim ele trouxe pra mim, veio bater a minha porta com um potinho que era meu, ele não tinha dúvidas. Apesar de ele ter perguntado se eu queria. E de fato justo hoje eu estava com uma fome, eu tinha até pensado mais cedo se abriria uma excessão e faria algo pra comer depois das 21h, quais peguei uma banana, mas eu já tinha comido uma banana as 20h e não tinha resolvido. A pipoca resolveu. O universo reconhece nossas necessidades mais íntimas e legítimas e às satisfaz . Nos conectar com a natureza de fora e de dentro é o que nos faz começar a reconhecer esse impulso, ou melhor, essa lei universal. Se não mudarmos no fundo do nosso coração as nossas necessidades, não mudaremos o que recebemos do universo. Se queremos receber diferente, temos que nos expressar diferente com o mais íntimo de nosso ser. Como vibrar no amor e na paz?  Na abundância e na alegria? Como alinhar quem somos com a vida que almejamos? O que define a diferença entre a natureza de dentro e de fora de nós? Qual é essa linha tênue de separatividade permeável que cria nossa identidade? E que nesse mundo para nos facilitar o entendimento nos vem como corpo? O corpo é nosso, ao mesmo tempo que tem toda sua multidão de habitantes e ao mesmo tempo que qualquer divisão é ilusória, ao mesmo tempo que conseguimos sentir claramente os seus limites físicos, ao mesmo tempo que também conseguimos moldá-los e desafiá-los. A pergunta de Spinoza: "o que pode um corpo?" é tão boa pergunta. O que é essa nossa matéria que abriga todo um universo? Todos no fundo sabem que há o infinito dentro, assim como há o infinito fora. Não se é isso que Paul Valéry quis dizer com " O mais profundo é a pele", não sei porque não o li. Mas se não for, acrescento esse sentido a essa razão: O mais profundo é a pele, porque a pele é o encontro (o fundo) dos dois infinitos que existem, o de dentro e o de fora. Assim como os olhos, a partir de outra composição também o são. Acho que preciso ler o Paul Valéry, porque caso ele não tenha escrito tal argumento, desenvolvê-lo-ei. 

Do mais meu dia hoje foi um tanto indisciplinado, estudei pouco (mas ontem eu rendi basntante, diz aqui a você minha criança interior que gosta de se justificar), nem sei ao certo como passei o dia, mas provavelmente pulando de distrações em distrações. Sei que tive uma conversa boa com o Maycow a respeito das instituições espirituais e/ou religiosas, tive um ótimo encontro do grupo de estudo do livro " A Cabala Mística" de Dion Fortune. Ela foi extremamente didática no capítulo que começamos a ler hoje e mesmo assim talvez não tenhamos entendido muita coisa. Como há complexidades nesse mundo. Ou como nós complexificamos imensamente coisas extremamente simples, para podermos chegar perto delas. Kether: o ponto, Chokma: a linha. O um e o dois. O estático e o dinâmico. O um e o outro, é essa a dinâmica que Chokma vem propôr, o isso e o aquilo, o pêndulo, o rítmo. O encontro de hoje teve muito mais do que isso, porém eu já devaneei demais hoje. E estou em um fluxo que elaborar qualquer coisa sobre tudo o que compreendi talvez seja mais prejudicial do que benéfico. Se nem mesmo a Dion ousou explicar tudo, quem sou eu para tentar explicar o que ela explicou? De toda forma qualquer outro dia eu tento elaborar algo sobre aqui. Deixando bem claro que nada do que escrevo aqui tem alguma pretenção de instruir alguém em algo. Muito pelo contrário, aqui é meramente um diário. É um lugar onde consigo deixar a escrita me ajudar a compreender qualquer coisa que seja dentro do que eu julgo interessante para mim neste momento. Sem comprometimento com nenhuma outra verdade que não seja a que eu consigo ver até então. E essa fonte, meu ser, pode ser duvidosa, já que eu claramente estou ainda engatinhando no mundo espiritual, e em tantos outros também. 

Dito isso, quero só acrescentar que neste capítulo, a Dion tratou tanto da relação de Chokmah com Kether, quanto com Binah. Era o capítulo sobre Chokmah, que não terminamos ainda. Mas na relação com Binah, Chokmah traz a dinâmica (porque ele é a força dinâmica) do masculino e do feminino, da misericórdia e da severidade, canal pelo qual passa a energia e receptáculo que a armazena, força que estimula a evolução e força que edifica as formas, ambos unidos formando o princípio do gênero, que é retratado no Caibalion. A chave para o sexo, que não é apenas tipológico, mas também temporal, cria a periodicidade rítmica, as alternâncias de épocas. Pararei por hoje. 

Muito obriga a Deus hoje especialmente, pelas conversas profundas, pelas filosofias e os saberes, pela boa escuta e a conexão no mundo não virtual. Obrigada pela paciência, pela persistência e pelo acolhimento. 

Com amor,

Bel 

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